[Diversidade Literária] Capítulo III O Romantismo (1836-c.1875) O Espírito da Literatura Romântica (Parte II) – Marivalda Paticcié

O Espírito da Literatura Romântica (Parte II)


Conforme verificamos ao traçar o perfil da poética neoclássica, o núcleo do classicismo ilustrado era a equação natureza = razão; e também constatamos que tanto a literatura sentimental do século XVIII quanto o neoclassicismo radical atuaram como dissolventes do cânon neo-clássico, comprometendo o ideal de uma síntese de naturalidade e idealidade. A essa erosão correspondeu, no plano ideológico, a negação da harmonia entre a natureza e cultura – mola do espírito arcádico e do “primitivismo” otimista do Setecentos; negação essa formulada, com a maior ressonância, por Jean-Jacques Rosseau (1712-78). Em vez de julgar a civilização um prolongamento harmônico da natureza, e da natureza humana em particular, Rosseau denunciou os efeitos antinaturais da cultura e do progresso, tão caro aos iluministas; mas em vez de, como o barroco, valorizar a artificialidade inerente à cultura, condenou-a como repressiva e tirânica.
Estava aberto o caminho para o elogio do “natural” contra a razão do “selvagem” (se bem que se deformasse, nesse ponto, o pensamento de Rosseau) contra o civilizado; aqui passamos do pré-romantismo inglês- da literatura chorosa dos Richardson e young- ao pré-romantismo alemão do movimento “Stum nd Drang” (Tempestade e Assalto), protogonizado, em 1970, pelo jovem Goethe. As teses do principal doutrinador do movimento, Herder (1744-1803), acerca da superioridade da poesia “bárbara” sobre a literatura culta, contribuíram poderosamente para abalar o monopólio de prestígio de que gozavam as letras clássicas. Na Inglaterra, Macpherson já estava colhendo o êxito retumbante com os seus cantos de Ossian (1970), um bardo primitivo imaginário, terrivelmente melancólico. Os alemães do “Sturm” fundiram o patetismo do pré-romantismo à inglesa – do romance sentimental, da comédia larmoyante e da poesia dos túmulos- com motivo titânico do indivíduo rebelde. (Werther). Melancolia e individualismo: o romantismo n~~ao estava longe.
Entretanto, os principais pré-românticos alemães, Goethe e Schiller, evoluíram para a serenidade didática de um novo classicismo- o classicismo pós-ilustrado de Weimar, que represa o demonismo do ‘Sturm” na moldura pedagógica do Fausto; por isso, o romantismo propriamente dito só nascerá, em Lena (1797), com a poética fantasista, deliberadamente caprichosa e chocante, isto é, antiburguesa, dos irmãos Schelegel.
*neoclassicismo: arcadismo
*dissolventes: aniquiladores
*cânon: regra, decisão, preceito de direito eclesiástico.
* poética: arte de fazer versos
*humanismo: doutrina dos humanistas da Renascença, que ressucitaram o culto das línguas e das literaturas antigas.
*erosão: desgaste
*ideológico: idéias
*harmonia: conciliação
*negação: repudiar, recusar
*naturalidade: natural
*prolongamento harmônico da natureza: continuação
*cultura e do progresso: sociedade corrompe
* artificialidade: produzido por arte
* inerente: essencial, inseparável
*titânica: injusta, opressiva.
*imaginário: fantástico, ilusório
*melancólico: triste, depressivo
*bardo: poeta, trovador
*fundiram: incorporar, unir
*pitoresca: original, recrear
*arquétipo: padrão, exemplar
*Darei continuidade a III Parte

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