[4ª Poética] Prece – Guilherme Paes

PRECE
Deus, se eu lhe acreditasse
Faria agora uma prece
Bonita como um poema
Se lhe acreditasse seria devoto
Fervoroso e resoluto
Do tipo que vai à missa bem cedo
Antes mesmo da névoa pesada
Desencobrir a cruz no cocuruto da igreja
Tão cedo que entraria com todo silêncio
Pra não acordar seu menino
Deus, se eu lhe acreditasse
Acenderia toda noite uma vela
Pra nossas mães que sofreram tanto
E conversaríamos sobre saudades
E aí eu dormiria em paz
Daria tantas graças, por tudo lhe agradeceria
Seria detalhista em minha gratidão
Grato por cada grão de café, pelo cobertor Parahyba
Por Mood Indigo e pelo Menino Impossível
Obrigado, obrigado, obrigado
Se lhe acreditasse seria livre
Deus me livre, me livraria de tudo
Os problemas todos jogaria no seu colo, Deus
Toma, que o filho é teu!
Toma que o filho é teu, Deus,
E leva daqui essa culpa!
Mais que minha é sua essa maldita culpa!
Pois é, Deus
Se lhe acreditasse.
Se lhe acreditasse, logo você me encheria o saco
Logo estaria bem puto contigo, lhe odiaria as barbas
Odiaria sua incompreensível concepção do tempo
Seus desígnios ignominiosos
Sai desse corpo que não te pertence, Deus!
Vade retro!
Me quero expurgada a crença no seu paraíso
Essa recompensa fajuta, injusta, esse desejo falacioso
Paraíso é cabresto na alma, lastro no lodo da inépcia
Se lhe acreditasse, Deus
Talvez lhe amasse muito
E por fim lhe desse adeus

Com um beijo na face esquerda
GUILHERME PAES

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