{Versartil} – O trem – Acauã Pozino

Esse trem,
Ah, o trem!…

Trem de doido,
Trem azul,
Trem afoito, para o norte ou para o sul.

Trem das 7,
Trem das 11,
Trem que não esquece,
Viajante de lá de longe.

Neste trem já embarcou muita gente.
Já houve choro, já houve riso,
Já ouve coro, até cravo antigo,
Já se comprou e muito foi vendido.

Por mil e uma estações vaga,
Divaga, devagar, devagarinho,
Esse passo, de passar, de passarinho,
Não é confundível com outrem.

Trem valente, trem forte
De ferro fundido e fosco,
De fera ferida tem rosto,
Mas como tem rosto, se trem não é gente?

É que esse trem, compadre,
É vivo.
É a cousa que nos arrasta,
Pelos trilhos afora.

É a doula que nos afasta,
Quando chega-nos a hora.

Esse trem valente,
De ferro fundido e fosco,
Já escalou montanhas
Já se arrastou pelo fundo da rasina,
Transpôs a fogo de carvão
A conhecida muralha da China.

Esse trem valente,
De fera ferida tem rosto.
Já carregou doutores, vendeiros,
Moleques, trepados ao teto,
Madames, de passo ligeiro,
Ciganos, de rumo incerto.
E entre toda essa gentaria
Vaga e divaga o poeta,
Que sabedor ele mesmo de sua meta,
Limita-se em imitar a maquinaria.

Que será da gente, oh senhor,
Diz alguém de vida em baralho;
Tirai-ma da mente, maldito amor,
Diz o namorado em intrínseco aparvalho;
Liberdade, liberdade e anarquia!
Apregoa o ambulante condoreiro;
Meu Deus, extinguiram-me a dinastia!
Diz saudoso o barão, ora vendeiro.

Mas onde está agora essa gente toda?
Ora, desceu cada um
Na estação que melhor lhe convinha;
Quedaram-se mais tempo alguns,
Outros deram só uma espiadinha.

O poeta permanece, é claro.
Seu destino, seu nome, seu canto,
Tudo nele é obscuro e raro.
É fosco, como o trem que anda,
Como o povo de Uganda.
Dos inúmeros que embarcaram,
Outro sem-número parou-se um momento
Fosse para cuspir-lhe em escarmento,
Fosse para ouvir-lhe a poesia.

Mas ligeiro como embarcaram, se foram.
Cada qual em uma estação.
Um na fazenda, outro em frente ao quartel,
Outro desceu na estação do cais,
E para além-mar foi-se num batel.
Vai-se, vão-se,
Vou-me, voo.

Quando saiu da Estação central,
De um qualquer país sem nome,
O trem vencia trecho a passo largo,
Era o trovão que rola, o fogo que consome.
A carvoeira era então
Um mar de brasas em fúria
Uma caixa de flamas,
Que em anéis de fumaça se inflama,
Na noite sombras, no dia ologramas.
Agora, contudo,
Triste e vazio,
O trem vai deixando no ar,
Esteiras cansadas de fumo gasto,
Como cansado de respirar.
E se aproxima a última estação,
Tão mais perto, como mais longínqua,
Pois é fato,
Dito entre a população;
É lerdo e longo o tempo
Quando se espera.

Já quase não há no trem vivalma;
As que estão, já se despedem,
Dão-se beijos de até nunca mais,
Ou viram-se e vão;
Nem se despedem.
Vai-se, vão-se,
Vou-me, voo.

É triste o resfolegar
Desta fera ferida e cansada.
Suas rodas de ferro calejaram
De tanta rodança e tanta lombada.
Quando a estação chegar,
Só restará no trem o poeta.
Então, ele descerá,
Na plataforma postar-se-á,
A esperar o próximo trem.
Ai, amigos,
Ai, amores,
Em qual estação ficastes?
Que maldade é essa deste trem,
Que queima as relações
Junto com o carvão em suas hastes?
Faço votos e orações
De que estejais todos bem.
Se dou sorte, depende do trem,
Ver-vos-ei em algumas estações.
Vai-se, vão-se,
Vou-me voo.

O trem,
Ah, o trem!…

(Acauã Pozino)

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