[Halloeste] Conto “Ostracismo XXI” – Sara Timóteo

Ostracismo XXI

 Passaram dois anos até que as pessoas que a haviam conhecido sentissem a falta dela. O linguajar incessante, o riso desbragado e a bazófia desalinhada não cativavam ninguém, ao contrário do que ela sempre havia pensado.
Quando se apercebera disso, remetera-se a um mutismo que, noutra pessoa, seria considerado como inquietante. O riso fora o primeiro elemento a desaparecer das interacções sociais em que era forçada a incorrer. Depois, Adelina deixara de se dirigir a alguém de moto próprio, com excepção das ocasiões em que comprava comida ou outros bens de primeira necessidade. Finalmente, desaparecera: deixara de sair à rua e isolara-se de tudo e de todos. Fora esquecida e em breve substituída por outras pessoas de riso mais fácil e de menor superficialidade.
O único ser que a notara diferente havia sido o seu cão. Apenas por ele saía à rua e entabulava conversa com os que, como ela, passeavam outros cães. Pirata, muitas vezes, gania e oferecia-lhe a pata ou lambia-lhe a mão e o rosto quando a encontrava banhada em lágrimas ao final do dia. Recebia Adelina sempre com a mesma alegria, quer fizesse chuva, quer fizesse sol.
Esta espécie de ostracismo continuara até que se convertera, em pleno século XXI, numa sombra do que fora. Era todos os dias resgatada por Pirata dos pensamentos mais sombrios. Assim a vida de Adelina prosseguiu até Pirata morrer de velhice cinco anos mais tarde.
Estava-se em plena época de Halloween. Pirata ganira e deixara de respirar. Enquanto o desfile da multidão passava por Adelina, ela embalava o corpo do seu companheiro animal nos braços.
Um jovem bem-parecido que passava mascarado de Drácula apresentou-se com uma leve vénia e disse:
– Este é o disfarce mais bem pensado de sempre! «Solteirona ampara o cão da sua vida». Sou fotojornalista. Posso tirar-lhe uma foto para a minha reportagem de Halloween?
Adelina virou a face para o cotovelo direito e lá escondeu as lágrimas até estar certa de que o pseudo-Drácula havia partido. Com um suspiro, levantou-se e encaminhou-se devagar para o apartamento onde vivia. De um qualquer modo paradoxal, pensou, era sempre nesta altura que as máscaras caíam. Como pode um jovem tão bem apessoado revelar tal crueldade?
 De súbito, desejou que o Hallowen dissesse respeito a algo de genuíno e que um dia Pirata e ela, nas rodas das várias vidas, pudessem encontrar-se de novo.

Sara Timóteo.

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