{Versartil} – O Condor – Acauã Pozino

Contaram-me de um tempo
Em que um pássaro esquivo
Tão voraz quanto altivo
Nos veio assombrar.

Planava no vento
Com ventos varria
Garbosas poesias
Nativos lamentos.

Sua língua, disseram,
Soava estrangeira,
Desbotada, grosseira,
Sem alma, sem versos.

Diz-se que só conhecia
A rude linguagem das armas
Dos cofres moedas e arcas:
Avesso ao cantar e à alegria.

Trouxe em suas asas a peste,
A fome, a guerra e o desprezo,
Ensinou nosso povo a ter medo,
A dar graças por sobras e restos.

Sempre que dele pergunto
Mostram-me o triste retrato
Do palácio feito em escombros
Dos homens feridos no pátio.
Sempre que dele se fala
Nota-se no ar uma sombra
Que de nossa poesia zomba
Que agressivo poder exala.

Mas enquanto canto o conto de tal ave
Agita-se o horizonte sobre as vagas
Que, possessas, se levantam em desagravo
Pressentindo a guerra, visita macabra.

E após erguer a vista do papel
Sentindo o golpe súbito no ar
Vejo encher-se de fagulhas o alto céu
E me supõe dificuldade acreditar.

Será? Será? Pergunto eu,
Pois nem nos sonhos mais funestos
Nem naqueles que cruzava o bravio Egeu
Experimentei temor tão indigesto.

Mas sim, é ele,
Sombrio condor,
Bramante senhor
Da guerra sem freios.
Sim, é fato
Que vem guarnecido
Que vem possuído
Por rancor amargo.
E sim, é verdade,
Que já o conhecemos,
E que juntos devemos
Saber enfrentá-lo.

Levanta-te, oh camponês,
E anda pelas terras que são tuas
E tu, que malhas ferro e manganês,
Chama os teus e faz-te dono desta rua.
Vós, que conheceis a humanidade,
Dai-nos força e direção p’ra prosseguir
Lembrai-nos da urgência de sentir
Convencei-nos da importância de pensar.
E nós, que de canções nos construímos,
Não esqueçamos de cantar da guerra a dor
Não despejemos glórias vãs a este furor
Que só conduz à morte tantos nossos primos.
Saibamos animar os combatentes
Sem que lhes façamos bichos de matar
Pois se Marte faz-se dono de suas mentes
Esta agonia não há nunca de acabar.

Mas já que o vento vem trazendo a tempestade,
Que os lobos brancos nos tolheram a liberdade
E até o mar saúda a Morrigan corvo da guerra,

Lancemo-nos às armas nesta hora
E algememos esta mão que nos explora,
Pois o Condor está de volta a nossas terras.

(Acauã Pozino)

 

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