{Versartil} Canto Negro – Acauã Pozino

Barua ya Upinde wa Mvua
(Carta do Arco-ìÍis)

Bom-dia, pra quem é de bom-dia,
Boa-noite, pra quem é de boa-noite;
rVenho falar sobre os descartados da eugenia,
Venho falar de quem sangrou sob o rijo açoite.

Mas antes, hei de fazer
Alguumas singelas considerações;
Porque muitos haverão de falar
que são bravatas, ilegítimas;
Versos fanfarrões.

Confesso, e espero ser crido,
Que não me agrada o holofote e a atenção;
Observar, refletir, este é meu estado preferido;
Mas é-me difícil calar, diante de tanta inação.

Peço licença, antes o canto,
A Dandara e aos seus Camaradas;
A Besouro, quebrador de quebranto,
A Mandela, d’África voz exaltada.

Peço licença também
Aos pretos-velhos da Aruanda,
D’Angola, do Congo o Guiné,
Aos MCs e DJs da Nova Holanda,
Aos trabalhadores guerreiros da Maré.

Mas por que tanto pedir,
Tanta mania de humildade?
Por que tanto se reduzir,
Tendo a humana imensidade?

Ora, é porque, senhores,
Não tenho a vivência vossa;
Não tenho em minh’alma os horrores,
As mazelas e contínuas dores
Infringidas pelos lordes d’Eropa.

A questão é que embora me vejam
De caucasiana pele, de caboclos traços,
Tenho em minh’alma, para os que nela creem,
Tenho em minha mente, para os que a esta veem,
Mlticolores e indistintos laços.

Nós humanos somos qual uma aquarela:
Mista de infinitas raças.
Nosso país, de Brasil brasileiro,
Ou brasiliano, como mais convém,
É a fusão do bumbo legüero,
Da flauta, do maracá, do pagode brejeiro,
Do atabaque sagrado, das terras de mar-além,
‘Dos choros trinados, de culto arpejo.

Mas isso já muito foi dito.
Falar, inclusive, é fácil.
Todo dia se ouve dizer
De democracia, de país versátil.

Mas pela favela, ninguém faz vela;
A ideia de ghetto virou casa de preto;
O moleque de vila no Brasil não cresce;
A maioria passa a vida subindo escada de chinelo
Mas na comunidade existe um tal de poder paralelo,
que diz que todo certo prevalesce.

Armas pro comando, armação pras comandas,
Ocultamento pra demanda de tanta gente boa;
Porque preto é tudo bandido vagabundo;
Caboclo é maconheiro que ama ficar à toa.

Mas não levante vosmecê o indicador
Para taxar-me o verso de comunista;
Para condenar-me por ser artista;
Para dizer que esta não é a minha dor.
Pois pra ti eu dou de volta um dedo médio,
Pra você que faz média e paga nde não racista;
E diz, com um hmor nefasto,
que os caracóis dos cabelos bastos,
Bastam para atrapalhar sua vista.

E não sou mentiroso,
Porque o que digo, de dentro vem;
E ser verdadeiro é tão mais oneroso
que não se aprecia isso em quase ninguém.

E deixe-me abrir um colchete
Para falar da prisão do amor.
Da obrigação do anormal a converter-se
Para assim, dizem, tornar-se melhor.

Amor é neutro substantivo;
Não se declina, não se inclina,
Não passa por coisas como seda florentina,
E amar, a fim de contas,
É verbo indiferente e intransitivo.

Muito falei, muito cantei,
Muito vaguei, pouco agradei, pouco sorri;
Mas não se pode pôr tinta de afresco
Sobre um muro que não é feliz.
O muro invisível das lamentações,
O murro contido de quem lamenta a ação;
Tudo issso ninguém percebe,
O santo é o diabo, e ninguém recebe;
A pureza é branca, e não há discussão.

Mas meu Deus, quem é o assinante
Desta carta tão ousada?
É o poeta jamais binário;
Sempre esperto, jamais mercenário.
É aquele que o moralismo dificulta,
É aquele que não pedirá arrego;
Até o último suspiro,
Em constante retiro,
Mesmo que em alheia luta,
Será um cara-pálida que ama
E pelas ruas afora se inflama
Em prol do movimento negro.
Acauã Pozino

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