{Estante Faroeste} – Ausência – Sarah Drummond

Sarah: Oi pessoal!
Voltando aqui depois de algum tempo, mas espero que gostem!
Deixem suas opiniões nos comentários!
Antecipadamente, obrigada.

Diana coçou os olhos, estava a horas em frente aquele computador.
Ouviu sua esposa Clara se mexer na cama e olhou para ela carinhosamente.
Depois, se lembrou que estava com frio e com fome. Olhou para a xícara
de café já frio, abandonada pela metade e o sanduíche ainda intacto deixados
por Clara naquele dia mais cedo.
Levou as coisas até a cozinha, as pantufas que usava fazendo um
barulho macio no chão de madeira. Olhou para as caixas de fast-food
vazias no balcão e a enorme bacia, ainda com um resto de
pipoca abandonados na bancada da cozinha.
Ao passar pela sala voltando para o quarto, notou as almofadas no
chão e as mantas no sofá, com pipocas abandonadas aqui e ali. Clara e
seus três filhos haviam feito a tradicional noite do cinema. Fez uma
anotação mental para perguntar se eles haviam se divertido, e depois de voltar para o quarto e
tomar banho, juntou-se a esposa na cama para dormir. A última coisa que
viu, foram os números vermelhos do relógio digital marcando 4:33 da
manhã, mas estava feliz, pois seu objetivo havia sido alcançado. Todas
aquelas horas em frente ao computador, durante todos aqueles anos haviam
valido apena.
Diana acordou, se espreguiçando lentamente, olhando com os olhos
semicerrados para o relógio digital, que marcava uma da tarde. Levantou
descansada e desperta, e depois de cuidar da higiene pessoal, foi
encontrar a sua família. Não via a hora de contar a clara que havia
finalmente conseguido. Clara ficaria feliz por ela. Acompanhou, desde o
início sua busca e sabia o quanto aquilo era importante.
A casa no entanto estava vazia. Um post-it colorido colado na
geladeira dizia que eles haviam ido para o parque, e que finalmente,
Miguel, seu filho mais novo, tentaria andar na bicicleta sem as
rodinhas. Diana sorriu. Pegou o telefone e ligou para a esposa. Clara
atendeu no Quarto toque, enquanto esperava, Diana batucava os dedos na
bancada, agora limpa.
– Oi flor do dia! – clara atendeu.
– oi, carinho. Como ele está se saindo?
Diana ouviu o sorriso de Clara.
– Incrível! Caiu umas duas vezes mas já tá bem. E andando muito
melhor.
– Que bom! – disse Diana, tirando uma caixa de suco da geladeira e
mudando o celular de lado no ouvido para alcançar um pacote de torrada –
Você filmou?
– Sim, está na nuvem.
– Que bom, vou olhar depois. O que está fazendo agora?
– Almoçando no Léo, e você? Fiquei com dó de te acordar, nem te vi
ir dormir.
– Vou comer uma torrada e tomar suco, acabei de acordar. Mas amor,
eu consegui! Eu encontrei a Beatriz. Ela mora em São Paulo e é dona de
uma loja de roupas em um shopping.
Ela ouviu Clara ofegar do outro lado e sorriu.
– Diana, isso é incrível!
– Sim, tem um telefone mas não tive coragem de ligar. Acho que vou
até lá.
Clara fez silêncio por quase um minuto, tempo suficiente para Diana
pegar o copo e o jogo americano no armário e sentar na bancada.
– Você está aí? – Perguntou a Clara.
– Sim. – Respondeu Clara. – Saí de perto das crianças. Querida, você
tem certeza que essa é uma boa ideia, quer dizer… Não é melhor avisar
a ela?
Diana pensou por alguns segundos, mastigando a torrada lentamente.
– Não, eu não vou ter coragem de ligar.
Clara ficou quieta mais uma vez.
– E como você vai?
– Vou desbloquear aquele cartão que o banco me deu e parcelar a
passagem e a hospedagem.
– Querida, não sei se essa é uma boa ideia, nós estamos com tantas
dívidas e você nem sabe…
Diana a interrompeu
– Eu sei sobre as dívidas, mas é algo que preciso fazer, será que
pode me apoiar nisso?
Clara ficou em silêncio por vários segundos
– Posso, mas Só se você tiver certeza do que está fazendo. – Clara disse,
parecendo cansada e ansiosa.
– Sim, eu tenho. – Diana respondeu firmemente, ouvindo o suspiro da mulher do outro lado da linha.
– Então vá, querida.
E assim ela fez: Comprou as passagens, marcou o hotel e uma semana
depois estava na rodoviária de São Paulo… Havia sido abandonada, muitos
anos antes em um lugar como aquele, e a ultima coisa que se lembrava era
da mãe se afastando, se misturando as outras pessoas e dos grandes olhos
Verdes da irmã, olhando para trás enquanto elas iam embora. Não sabia se
aquilo era uma memória real, mas era a mais vívida que tinha.
Depois de se trocar no hotel, foi até o shopping onde a irmã
trabalhava, caminhou devagar pelos corredores, observando as pessoas se
divertindo e vivendo suas vidas.
Viu a placa com o nome da loja e respirou fundo, tentando se
acalmar. Ela não sabia como, mas de repente, estava em frente à ela. No
balcão, uma moça loira de olhos verdes conversava com uma pessoa, e
imediatamente ela soube duas coisas, uma, aquela era sim Beatriz, sua irmã, e a outra era que Seja qual fosse o motivo, os dois estavam
discutindo.
Ela entrou na loja devagar, sentindo que suas pernas eram duas
marias moles e parou, esperando a conversa acabar.
– É você quem sabe, quanto mais tempo você insistir, mais sua dívida
vai aumentar. Eu estou oferecendo pra você, contra todas as normas do
shopping a isenção da multa da quebra de contrato. Mas essa oferta é
agora.
– Eu te paguei muito bem para isso. – A voz de sua irmã foi baixa,
porém, a postura era ereta, com o queixo erguido orgulhosamente.
O homem se inclinou na direção dela e sussurrou algo que Diana não
conseguiu ouvir. Então virou as costas e foi embora, passando por Diana como se
ela não existisse.
Sua irmã ficou imóvel por alguns segundos então olhou para ela.
– Posso te ajudar?
Diana ficou parada, esperando ser reconhecida, quando nada
aconteceu. Ela pensou que estava exigindo muito da irmã, afinal, elas
eram muito jovens quando tudo aconteceu, e mesmo que ela ainda se
lembrasse, não podia exigir o mesmo da outra mulher.
– É formatura, casamento ou festa de debutante?
Diana olhou envolta.
– Não, nada disso. – Mas isso foi tudo que conseguiu falar, pois
seu olhar se voltou para a irmã, que era uma mulher belíssima, com olhos
verdes, cilhos grandes e maçãs do rosto delicadas. Ela conseguia
enxergar perfeitamente a menina que olhava para trás em suas
lembranças.
– Vo… Você é Beatriz Sales?
– Sim, se veio falar sobre a vaga de vendedora, pode desistir, não vou mais
contratar ninguém. – Ela começou a mexer no computador, digitando freneticamente.
Perdendo o interesse em Diana, já que ela não iria comprar nada.
Diana ergueu o queixo, tomando coragem, em uma atitude que lembrava
a da irmã, quando enfrentava o homem minutos antes
– Eu me chamo Diana, Diana Limberger, mas sabe, um dia, a muito
tempo atrás, eu me chamava Maria Eduarda Sales.
Os dedos no teclado pararam, mas a expressão no rosto bonito era
indecifrável.
Beatriz respirou fundo soltando um longo suspiro.
– Você se parece com ela… O cabelo preto, os olhos azuis… – Disse, jogando os cabelos para trás.
– Com… Com a nossa mãe? – Perguntou Diana, tocando de leve nos cachos negros.
Beatriz assentiu, e a ausência de expressão assustou Diana.
– É, ela mesma. O que você quer?
– Eu… O que eu quero? Eu…
Diana parou para respirar, a postura de confiança desabando. Esperava lágrimas, emoção e abraços, em algumas vezes, imaginou gritos, mas nunca, jamais aquela ausência total de expressão.
– Se você quer saber, ela morreu, três anos atrás. Overdose de
heroína.
Diana ofegou, seus olhos ficando úmidos com o choque.
– Ah, para! Ela não merece suas lágrimas, ela abandonou você. E me
criou aos trancos e barrancos para perseguir o seu sonho fracassado de
ser cantora. Ela nunca conseguiu, abandonou você no processo e acabou
com a minha vida;.
Tinha tanta raiva em suas palavras que Diana deu um paço para trás.
– Eu sinto muito…
– Não sinta. Eu me viro, sempre me virei.
– Eu notei, sua loja é incrível
– Ela não é mais minha, vou fechar. Estou falida. Sou uma
fracassada, assim como a nossa mãe, por enquanto, mas eu não sou fraca
como ela era, eu sou bonita e esperta, pelo menos isso ela fez por mim, não que
ela tenha muita participação nisso também.
– Eu posso te ajudar em alguma coisa?
– Você tem um Milhão de reais para me dar? Isso me ajudaria.
Diana ficou chocada.
– Meu Deus! não. – Respondeu, pensando em todos os boletos que tinha
para pagar, e na dívida enorme que havia feito para estar ali.
– Então não. – Beatriz respirou fundo. – Olha, não sei o que você
estava procurando, amor, carinho, um abraço emocionado e sei lá o que,
mas quer saber? Não vai rolar, eu não tenho nada para você. Um sinal de emoção passou pelo rosto dela. – Você vai ficar melhor como está, sem mim na sua vida.
Diana ficou parada por longos segundos, então respirou fundo.
– É uma pena que pense assim. Mas tudo bem… –  Com as mãos tremendo,
pegou sua agenda e rabiscou o seu número.
– Me liga se mudar de ideia… – Disse, caminhando na direção da
irmã e colocando o papel no balcão. – Eu… Eu vou gostar muito de te
conhecer.
O lábio inferior de Beatriz tremeu levemente, mas seu olhar não mudou.
Diana não suportava olhar para aqueles olhos, imaginando quanta dor eles
escondiam, então, virou as costas e se afastou, de repente, louca para
voltar para casa.
Enquanto voltava para o hotel, Diana sentia um misto de emoções que
a deixou tonta, pena, raiva, tristeza e decepção.

No ônibus, abriu seu tablet e viu os vídeos do filho aprendendo a andar de bicicleta
sozinho e as lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto, ela devia
ter visto aquilo pessoalmente. Viu as fotos da noite de filmes e todos
os outros programas familiares que havia perdido enquanto realizava sua
busca obsessiva pela irmã.
Fechou a página e Fez uma chamada de vídeo para a esposa. Clara
atendeu e as duas se olharam por alguns segundos.
– Ah, eu sinto muito amor…
Diana balançou a cabeça.
– Não sinta, você tentou me avisar, mas eu não ouvi, porque eu sou assim.
– Venha para casa e me conta tudo. Vamos passar por isso.
Diana assentiu lentamente,
– Eu amo você, e amo as crianças, e prometo que vou ser uma mãe e
esposa melhor.
– Eu vou me lembrar disso. – Clara disse, sorrindo carinhosamente,
e o amor em seus olhos castanhos chocolate trouxe um pouco de paz ao
tumulto causado pelos Verdes da irmã.

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2 comentários em “{Estante Faroeste} – Ausência – Sarah Drummond

  1. Quero mais!

  2. Uau! Quando vai sair a próxima parte?
    História triste, porém sinto que será recheada de emoções.

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