{Estante Faroeste} – E se? – Laura Kaiser

E se tudo tivesse sido diferente, será que eu estaria aqui agora? E se
eu tivesse seguido por outro caminho, as coisas teriam sido melhores?
Não sei. Essas são as primeiras perguntas que surgem na minha mente
desde que te vi pela última vez.

Hoje, sentada em um banco de lanchonete qualquer, bebericando segundo a
segundo um pouco do café preto que me desperta para a realidade em que
me encontro, procuro repassar tudo que vivemos juntos nesses últimos
anos.

Encaro distraidamente as pessoas que entram e saem da fila que leva
para o balcão de atendimento, mas não estou as vendo realmente. Minha
mente viaja para outro momento, em outra época, impedíndo-me de ver as
coisas em sua totalidade.

Eu tinha certeza absoluta que tudo que estávamos tentando construir juntos
era o melhor. Afinal, nos amávamos, não amávamos? Como poderíamos pensar
em esperar o futuro chegar e as coisas acontecerem para planejarmos a
nossa vida juntos? Não tinha pra quê. Naquele momento, a certeza que
existia dentro de nós era maior que qualquer futuro ou promessa de segurança
financeira para esperarmos.

Então, assim que completei meus 18 anos e as opiniões dos meus pais não
podiam mais me atingir, não realmente, eu parti. Você estava com 18 anos
também, havia recém os completado, quatro meses antes de mim e sabíamos
o que queríamos e fazíamos. Ao menos pensávamos que sim.

Nos casamos, sem a aprovação das nossas famílias, a não ser por um ou
outro amigo aqui e ali que não nos achavam doidos por termos feito algo
tão intenso como aquilo e passamos a morar juntos. De início foi complicado,
nem você e nem eu tínhamos para onde ir, então tivemos que ficar na casa
de uma amiga em comum que concordou em nos ajudar enquanto não
encontrávamos um emprego descente para pagarmos nossas próprias contas
sozinhos.
Eu estava prestes a iniciar na faculdade de publicidade e você não tinha
muita nossão do que queria fazer ainda. Mas ao menos conseguira um
emprego como assistente de um marceneiro na cidade.
Eu também havia procurado um emprego, e mesmo sabendo que conciliar estudo e
trabalho era difícil, eu não tinha muita escolha. Depois de algumas
semanas, tive a sorte de conseguir trabalhar como vendedora em uma loja
de roupas em um shopping grande da cidade, e dava para ajudar nas contas
da casa dessa nossa amiga, ao menos.

Tudo era bem difícil. Não podíamos gastar direito com nada que
queríamos. Todo o dinheiro ia para contas e despesas, sobrando muito
pouco para fazermos um programa entre nós. Nossos pais ainda estavam de
cara virada conosco, e nos vimos totalmente isolados das nossas
famílias.
Por vezes me peguei chorando, com saudades das minhas irmãs mais novas,
mas não podendo as ver porque minha mãe decidira que cortaria laços
comigo enquanto eu estivesse com você.

— Eu não criei filha minha pra se casar com marginal. — dissera ela ao
me botar pra fora de casa dias depois do meu aniversário.
Eu, você, nossos amigos e até deus sabia que marginal você não era. Mas
minha mãe decidira julgá-lo por conta dos seus pais, que sim, eram
realmente pessoas bem difíceis.
Seu pai já tinha fichamento na polícia e sua mãe quase morrera em uma
briga de rua no bairro onde moravam. Eles eram violentos, ignorantes e
totalmente contra mim, me achando patricinha demais e de nariz em pé.
Dizendo que eu iria tirá-lo de perto deles.
“Completamente surtados”. Pensara muitas vezes, sem ter a coragem que
deveria para explanar à você o que sentia ao vê-los.

— Não entendo o que você quer comigo, Tamires. Você merece coisa
melhor. — eram as primeiras coisas que você dizia, tentando me
convencer a desistir daquela loucura e voltar pra casa.
eu não queria. Já havia tomado a minha decisão.
Assinara o papel que nos declarava marido e esposa e não tinha mais
jeito, eu iria até o final. E realmente eu fui.
Mesmo passando necessidade e aperto por muitos meses até conseguirmos
nos estabilizar, eu sabia que ficaria tudo bem. Algo dentro de mim me
dizia isso. Decidi seguir essa intuição e me mantive firme, por mais que
as vezes quisesse despencar.

Além da certeza que as coisas melhorariam para nós dois, o que me
mantinha em pé era você. Seu abraço, sua pele na minha e tudo que fazia
para me ver melhor. Os presentes fofos que você mesmo fazia, os passeios
surpresa que criava e as piadas idiotas que soltava durante os dias,
tudo para me arrancar um sorriso. Isso era o suficiente pra ver que você
estava tentando, e que eu precisava tentar também. Afinal, era nítido em
seu olhar que você sofria tanto quanto eu.

Por mais que seus pais fossem pessoas difíceis, eles eram seus pais e
você não tinha muitos problemas com eles antes de eu aparecer na sua
vida. Você nunca gostara muito de atritos e agora enfrentava o maior que
pudesse existir. Além disso, você estava com medo, mesmo que nunca
admitisse em voz auta..
Medo de um futuro miserável e sem esperança de melhora. Medo que eu
sofresse pra sempre vivendo daquele jeito, medo de o que existia
entre nós se apagasse, pouco a pouco, devido a tanto azar e fracasso.
Foi reconhecendo em você esse medo, essa tristeza, sua vulnerabilidade
que eu pude ter certeza que não estava sozinha nessa. Que até nos
sentimentos ruins você me acompanhava, você me entendia. E
estranhamente, isso foi o que eu precisava para ter energia pra lutar.
Lutar com todas as minhas forças para termos o que tanto precisávamos,
além do amor, que já transbordava pelas nossas células.

O tempo passou, não só meses, nem um ou 2 anos. Mas sim, 10 anos. 10
longos e incansáveis anos. Agora, não éramos mais os jovenzinhos que não
sabiam nada da vida, mesmo que fôssemos jovens para os olhos de alguns.
Nossas almas carregavam a sabedoria de um ancião muito, muito velho. Lutamos, sofremos, choramos, mas rimos também.
Ganhamos, perdemos, ouvimos muitos nãos, porém poucos sins. Trabalhamos.
Ó, como trabalhamos para termos algo para chamar de nosso. Mas,
conseguimos!

Consegui um ótimo emprego na minha área, e você, depois de tanto pensar,
havia decidido o que gostava e estudou muito para chegar lá, e se tornou
o melhor professor de teatro que o Brasil já conhecera na vida. Abriu
seu próprio centro de teatro, com uma ajudinha da minha parte na
divulgação, é claro.
Conseguimos comprar uma casa pequena, porém bem aconchegante próxima do
centro da cidade e nosso próprio carro. Adotamos não um, mas dois lindos
vira latas e formamos a nossa própria família.

Com o tempo, depois de mais três anos somente nos concentrando no
trabalho e nas correrias do dia a dia, decidimos almentar essa família e
eu dei a luz a uma linda menininha, a qual demos o nome de Clarice, já
que amávamos a Clarice Lispector.

Até mesmo minha mãe decidiu ceder e começou a se aproximar, pouco a
pouco. Mas admito que até hoje a mágoa mora dentro de mim, por mais que
tenha perdido cada vez mais espaço no meu coração. Seus pais também
começaram a ver que eu não era ladra de filhos e quiseram conhecer a
neta, pela qual se apaixonaram. Também, como não amar um ser tão
iluminado como a nossa pequena Clarice? Impossível.

Hoje, com os meus 67 anos de idade, sentada aqui nessa lanchonete. Penso
como você está agora, aí do outro lado. Sim, posso ter perdido você para
o câncer nesses últimos meses, mas tive você por toda uma vida, e é isso
que me faz abrir um sorriso nesses tempos tão difíceis. Ao menos tenho
Clarice, agora mulher, transparecendo muito de você no jeito de ser e de
falar.

Por isso, respondendo as perguntas que me invadem a mente nesses tempos
tão tempestuosos sem você aqui. E se tudo tivesse sido diferente, será
que eu estaria aqui agora?
Não sei. Porque o que importa não é como teria sido, mas como é. Porque
essa é a única certeza que eu tenho agora, assim como tinha aos 18 anos.
O amor que nos fez vencer qualquer dificuldade, que nos fez
acreditar que tudo pode ser possível e que merecíamos estar juntos,
mesmo que todos dissessem o contrário.
E se eu tivesse seguido por outro caminho, as coisas teriam sido
melhores? Bom, na época eu só tinha 2 caminhos para seguir. Tentar com
você, ou largar tudo o que palpitava dentro de mim para ter o que havia
ao meu redor.. Então não, não teria sido.
Eu posso ter sofrido por muitas coisas. Posso ter aberto mão do conforto
que eu tinha e posso até mesmo ter me afastado da minha família. Mas
havia sido escolha minha, mesmo que o mundo inteiro fosse contra. Eu
banquei a minha decisão e lutei pelo que eu queria.
Sim, talvez tudo pudesse ter dado errado no final. Talvez você pudesse
ter me deixado, algo muito ruim pudesse ter me feito voltar atrás, mas
ainda sim seria minha escolha.

Eu não pensei nos e se, eu fiz ser. Porque o hoje é dado pelo universo
como um presente para termos a chance de deslumbrar algum futuro lá na
frente. Do que adianta pensar em uma obra de arte perfeita no fim, se
você não pega o pincel e a tinta e começa a trabalhar? Não adianta de
nada.
E eu usei todas as armas que dispunha no momento e criei a obra de arte
mais linda aos meus olhos. Graças as ferramentas, o amor.

Deixo a xícara de café já vazia sobre a mesa e me levanto, caminhando
confiante para o balcão, amando os meus cabelos brancos e as marcas de
expressão pelo rosto, que me contam a cada dia qual foi a minha
história.
E eu amo relembrá-la a cada momento!
Pago pela bebida e agradeço a atendente com um sorriso, dirigindo-me para
fora do estabelecimento.
Olho sorridente para a rua, pronta para começar mais um dia e terminar
de criar a minha jornada, para em fim me encontrar com você.

FIM

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